Muita gente sabe que a minha relação com os meus pais não é a melhor, nunca nos entendemos, os feitios diferentes e muitos traumas no passado fizeram-me ficar fria com eles, fizeram-me afastar porque só de pensar em coisas que passei com eles doia demais.
Mas a verdade é que tenho saudades do meu pai, ainda não cai em mim de que morreu, custa-me acreditar que aquele homem cheio de defeitos, que não parava, que trabalhava pelos sonhos dele, que montou tudo o que tem a pensar na reforma, um homem forte como ele como pode ter morrido???!!! É impensavel e mesmo eu dizendo que ele tinha muitos defeitos e que os meus problemas com ele foram grandes a verdade é que não aceito que o perdi.
Sinto falta de tudo o que me queixava dele, dos telefonemas mesmo sendo para me chatear por não ir mais vezes lá a casa.
O meu pai nunca parou, mesmo quando estava doente não parava quieto. E domingo à noite (7 da tarde) liga-me o meu irmão a dizer para ir visitar o meu pai pois estava com uma gastro, e estava desidratado, perguntei porque não ia ele ao medico já sabendo que a resposta dele seria não, que hospital nem pensar. Chamaram um medico privado lá a casa que o pos a soro e lhe deu uma injecção para a gastro, com a advertencia que se não melhorasse teria de ir ao hospital.
Devido à hora e por falta de gasoleo confesso que lá não fui, mas prometi ir no dia seguinte (segunda) nem que arranjasse algum dinheiro para o gasoleo.
Eram 5 da manha recebo uma chamada da minha cunhada, a primeira reacção foi "olha foi para o hospital", quem pensaria que ele ia morrer assim sem mais nem menos? Um homem como ele não morreria de uma gastro. A verdade é que o que ouvi do outro lado da linha foi o meu irmão, a chorar num desespero absoluto "Andreia anda cá depressa que o pai morreu, o pai morreu" e eu nem reagi direito apenas pensei "impossivel". Perguntei inumeras vezes se era verdade, até que atende a minha cunhada "Andreia anda para cá que o teu pai morreu mesmo".
Primeira reacção? "o meu irmão... o meu irmão" as lagrimas caiam involuntárias (como neste momento), não não pensei no meu pai, primeiro o meu irmão, depois como estaria a minha mãe, como estaria a minha avó visto ser o segundo filho que perde.
O Pedro foi buscar a Di, e segui logo para lá com o Lipe e quando o vi deitado na cama o unico pensamento foi que estava a dormir.
A policia subia e descia a escada, pensam em negligencia medica e mandam-no para autopsia, e no meio disto tudo vimos o meu pai dentro de um saco plastico ser levado pelos bombeiros. Mas o pior de tudo é o meu irmão, cunhada e mãe terem-no visto morrer porque não conseguia respirar, previsão um AVC mas sem certezas, essas só haverá daqui a um mes e já se saberá se foi mesmo negligencia.
Ser forte foi tudo o que tentei ser, não chorei, não rebentei como aconteceu na minha avó, não porque não faltasse vontade mas sim porque tinha de ser a mais velha, primeiro o meu irmão depois eu, tentar estar fria para resolver o que havia a resolver visto a minha mãe não ter capacidade. Todos diziam "até tenho medo quando rebentares, vai ser pior o melhor é chorares vai-te fazer bem", mas não chorei, não na segunda.
Mantive-me o mais firme possivel, entrei poucas vezes na capela porque para mim não era o meu pai ali deitado, roxo, com algodão na cabeça devido à autopsia, com a cara repuxada ao maximo para que não se notasse o que quer que fosse dos cortes. Todos olhavam para mim, a filha que não chorava, que apenas fugia ao assunto e se ria (rio quando estou nervosa e pouca gente entende isso), a filha que estava ali fria.
No dia do funeral rebentei, não por falta de força porque essas ainda tinha algumas na reserva, mas por me ter enervado com a minha mãe, começou por um choro de raiva que controlei até à missa funebre, mas entretanto chegou o pessoal do meu trabalho, todos com palavras de apoio, não que os outros não as tivessem mas é significante o que eles fizeram, perguntaram como estava, apenas sorri e disse que ainda não tinha caido em mim. Entra o padre e começa a missa, ter de estar ali dentro com toda aquela gente (alguns com falsidade e isso foi algo que me fez confussão e ainda mais raiva), ver o meu pai ali deitado, algo que eu não aceitava, comecei a sentir-me sofucar, as lagrimas a começarem a cair, não queria mostrar a ninguém que estava mal seria até ao fim a filha que não chorou, pedi ao Lipe que me tirasse de lá, "agora não, está toda a gente aqui, é a missa", mais 3 segundos e mais uma lagrima a rebentar... "serio Lipe tira-me daqui" senti-me fraca, a desfalecer, ganhei lanço e sai de lá empurrei meio mundo para poder sair, apenas de cabeça baixa para que ninguém me vi se chorar enquanto repetia vezes sem fim "não quero estar aqui, não quero estar aqui" (pensando nisto agora não me parece real).
Cheguei cá fora e rebentei, chorei como já há muito não me lembrava de chorar (desde a minha avó), e enquanto chorava respirava fundo para tentar parar, mas na realidade não dava para parar, a raiva de ele não ter ido para o hospital, a raiva pela estupidez dele, a raiva pela falsidade de muita gente, a raiva pela vida que é injusta, saiu de tudo um pouco. Quando vi sairem da capela controlei-me e meti-me no carro para que ninguem me vi-se, fui até ao cemiterio a pensar que não podia chorar mais, não podia preocupar o meu irmão que já por ele estava mal, não podia preocupar o Lipe que também não estava bem devido à tal amiga dele que também morreu.
Se aguentei? Não, abriram o caixão lá no cemiterio, a minha avo agarrou-se a ele num choro compulsivo, mais um filho "o meu Nelson o meu rico filho", e eu de repente cai em mim, nunca mais o ia ver, mesmo a resmungar, mesmo com as coisas tipicas dele, e voltei a ve-lo ali deitado imovel, e so pensava na terra, e no "acabou" e ai sim rebentei mesmo, chorei compulsivamente.
Não me quis despedir dele embora me dissessem que devia faze-lo, prefiro pensar nele como era do que naquele estado, sentir o frio dele era impensavel para mim e não o fiz. A minha tia ao vir-se despedir de mim disse-me "estavas a fazer-te de forte não estavas?", não respondi, a raiva era tanta que nem para falar dava.
Se chorei mais depois disso? Sim muitas vezes, principalmente quando penso que queria o colo da minha avó e já não o tenho, dois no mesmo ano é demais.
Se fui a melhor filha? Não, não o fui por coisas que ninguém entenderia não o fui, mas na igreja perdoei-o por tudo.
E por muito que me tenha feito eu queria voltar a te-lo cá, ainda não mudei o nome dele no telemovel e sempre que o meu irmao liga penso que é ele, quando vou à minha mãe ainda penso que ele esta na cave, quando ouço ou vejo uma carrinha penso que é ele, ainda tenho a foto dele no inicio do portatil, ainda não eliminei o Hi5 dele nem eliminarei.
Eu sou a pessoa certa para dizer, não se zanguem por coisas minimas, não deixem de visitar quem amam mesmo sabendo que não se sentem bem com essa pessoa, amem, digam a quem amam que gostam deles porque o meu pai morreu sem ver a Di e a mim há um mes.
No domingo em casa do primo do Lipe estavam a falar de obras e eu ia dizer "se quiserem pergunto ao meu pai se é assim", parei no momento certo, e cai em mim que não ia haver mais o sonho que fosse ele a construir-me uma casa um dia, como eu queria, não havia mais o "vou perguntar ao meu pai" porque ele não estava cá mais.
Sinto saudades, das chamadas mesmo sendo para me berrar ao telemovel, das conversas no msn em que desabafava comigo sobre a minha mãe, das idas lá a casa em que mesmo me sentindo mal lá, sai sempre de lá com um sorriso porque no fundo até tinha corrido bem. Sinto saudades... e nunca pensei que ficaria assim, sem conseguir dormir, sem conseguir estar sozinha, sem conseguir enfrentar o silencio e o escuro.
Ainda não cai por completo em mim, para mim ainda está "vivo".
E este ano o natal não tem significado, e se não fosse a Di nem arvore montava.



